Uma noite 100sacional

Existem momentos em gostaríamos que perdurassem para sempre. Tive essa sensação ao participar do evento Papo Rubro-negro, homenagem ao centenário do Futebol do Clube, realizado na sede social da Gávea e organizado pelo Museu do Flamengo.
De cara, foi impactante chegar a um ambiente festivo e recheado de emoção. Uma verdadeira viagem no tempo onde era possível admirar camisas históricas, troféus e fotos, além da presença de jogadores atuais, outros das divisões de base e ex-jogadores.

Foi difícil fingir naturalidade com o que presenciava, aliás, a tentativa de controlar a emoção durou menos de 10 minutos. Virei criança e, sem cerimônia, comecei a tietar meus ídolos. De cara fui falar com o Maestro Júnior. Lembrei da minha amiga Marcellinha que sempre sonhou conhecê-lo. Sei que ela merecia esse momento mais do que eu, mas o Capacete foi um dos meus heróis e não poderia sair dali sem uma foto. Depois foi a vez de Cantareli, Rondinelli, Manguito, Vítor, Renato Carioca

Mais adiante, avistei Silva Batuta. Não deixei escapar a oportunidade de abraçar o camisa 10 dos anos 60. Ídolo da massa, dono de uma habilidade ímpar e um canhão nos pés. Após a foto e agradecimento pela sua carreira, pedi para ele visitar meu blog para rever alguns dos seus gols, mas me olhou com uma cara típica de quem não é habituado com essa “modernidade”. Outro momento marcante foi o papo com Paulo Henrique. Meu amigo Renato Croce, do blog FlaManolos, quase chorou ao ouvir dele que, em sua época de jogador, assinou 9 contratos em branco com o Mengo. Simplesmente era apaixonado pelo clube e o dinheiro era o menos importante. Esses caras eram absurdamente Flamengo.
Deixei de tirar muitas fotos e de conversar com outros jogadores como Nelsinho, Gilmar Popoca, Jorginho (meio campo que jogou entre 1997 e 2003), pois não sabia o nome de muitos que estavam os acompanhando, e não achava justo chamar alguém da roda de bate-papo para tirar foto apenas com o mais famoso. Também foi comoventemente triste a quantidade de ex-jogadores anônimos e esquecidos. Senti-me mal, pois dava para perceber o quanto queriam um pouco de atenção e reconhecimento, mas minha falta de memória e desleixo também contribuiu para esse descaso.

Fiquei muito feliz com dois jogadores do time atual, Luis Antonio e Renato Abreu. O tempo todo com sorriso nos rostos, brincando entre eles e com as crianças. Conversavam com qualquer um que os procuravam e em outros momentos admiravam os vídeos que eram exibidos sobre os títulos rubro-negros. Sabiam exatamente a importância do evento e a dimensão do amor de todos pelo Flamengo. Assim como eu, foram os últimos a sair, praticamente expulsos pelos funcionários que já recolhiam o material da exposição.

Foi uma noite memorável! Salão lotado de fãs, de ídolos e história. Mais uma vez agradeço por ter nascido Flamengo e feito deste clube a razão de minha vida. Momentos como esses, mal contados nas linhas acima, fazem tudo valer à pena. O esforço do dia a dia fica minimizado e, revigorado, sigo cantando ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro.

O acaso e a coragem

Havia uma réstia de luz no início da partida contra o Duquede Caxias. Bola de pé em pé sem a ensebada protocolar de Renato Abreu, sem ostropeções de Willians. É um jogo mais límpido, mais fluente, mais simples. Semaquela bola que Renato Abreu prende, gira o corpo, olha para o meio e não vêninguém e então volta para passar para Júnior César, que corre, corre, correaté perder. 
Muralha joga de cabeça em pé. Quando toca em diagonal, tocacerto, um pouco à frente da passada de quem se desloca para receber. Com isso, otime poupa tempo e ganha espaço. Luiz Antônio guarda bem a subida do lateral etem fôlego para ir ao apoio. Também toca melhor e mais rápido que Renato Abreu.E Camacho fez o simples, toque ligeiro, porque estava ali pra isso e não paraimpregnar o jogo com um pretenso estilo, como faz Abreu.
Calma. Não estou dizendo que Muralha e Luiz Antônio são Xavie Iniesta. Apenas são promissores, e se tivermos que optar entre jovenspromissores e velhos decadentes, há alguma dúvida? Os dois sofrem com o mesmoproblema. São da base do Flamengo e, logo, se acham. Mal existem no mundo dabola e já metem um moicano, tranças e dreadlocks, imensos cordões dourados no pescoço.Isso atrapalha muito, mas é assunto para outro texto. E Camacho, bem, Camachosó não atrapalha. Eu jogaria com Bottinelli em seu lugar, mas o gringo não seajuda.
A réstia de luz brilhou mais quando Love fez 1×0 e teriailuminado mais se o mesmo Love não perdesse cara a cara o 2×0. Aí os carasempataram no segundo tempo, os garotos acusaram o golpe e foi um drama arrancaro 2×1, que só veio com Ronaldinho e para isso peço outro parágrafo.
Ronaldinho. No segundo tempo ele correu mais, bateu duasfaltas, deu uma finta bonita e chutou mal de canhota. Na hora do pênalti,chutou seco na costura, a melhor cobrança desde que chegou ao Flamengo. Ele temdefeitos, não é mais o mesmo, não vale 14 milhões para um clube que não temdepartamento de marketing, mas o problema não é ele. Bom, isso também é assuntopara outro texto.
O que quero dizer é que os desfalques e o acaso obrigaramJoel a pensar um time mais solto. Se esse time mais solto vencer o Emelec, podeser uma mudança de modelo que aumente a nossa vida na Libertadores. É tristeisso, me lembra Parreira na Copa de 2006 dizendo que a trilha sonora da seleçãoera “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”. Cazzo, o acaso? Comtantas maneiras de formar um time, nós temos que contar com o acaso?
Bom, o acaso tirou os volantes do Flamengo da parada. Talvezaté com mais força do que o desejável, porque eu gostaria de ver uma zaga comGonzáles e Aírton, mas o fato é que abriu espaço para quem trata a bola umpouco melhor. Com um pouco de coragem do distribuidor de camisas e de quem asreceber, haveremos de ter um Flamengo melhor já na quinta.
O acaso ajudou. Mas chega de distração e vamos jogar bola.Chegou a hora de dizer até onde esse time pode ir.
Duque de Caxias 1×2 Flamengo
4 de março de 2012 – Taça Rio
Estádio Cláudio Moacyr – Macaé
Árbitro: Péricles Bassols Cortez
Flamengo: Felipe (Paulo Victor), Galhardo, Marcos González,David Bráz e Junior Cesar; Muralha, Luiz Antonio, Camacho e Ronaldinho Gaúcho;Deivid (Negueba) e Vágner Love. Técnico: Joel Santana
Duque de Caxias: Fernando; Arilson, Paulão, Jorge Fellipe eRodrigues; Romário, Juninho, Raphael Augusto (Danilo Rios) e Jefinho; Watthimem(Rafinha) e Gilcimar (Laio). Técnico: Eduardo Allax
Gols: Vágner Love aos 15 do 1º tempo; Rodrigues (falta) aos17 e Ronaldinho Gaúcho (pênalti) aos 37 do 2º tempo.

Ferimentos leves: a derrota em Potosí

Mauricio Neves de Jesus

Curioso esse jogo a quatro mil metros acima do mar. Poderíamos ter conseguido um resultado melhor, com um pouco mais de capricho nos passes de aproximação em geral e especificamente na desgarrada de Negueba, que ao invés de servir a Bottinelli deu uma raquetada que fez a bola se perder. Mas também poderia ter sido muito, muito pior. As defesas de Felipe e os erros de conclusão do pavoroso Real Potosí indicam que eles estiveram sempre mais próximos de qualificar a vantagem do que nós do empate.

Sim, a bola corre demais e adultera o jogo.  Mas algumas duras verdades nem o ar rarefeito consegue esconder. Uma, Gonzalez fora, não temos nenhum zagueiro decente. Duas, jogar com quatro volantes é para time pequeno. Três, Willians precisa curar seu TOC de perder a bola e recuperá-la para perder de novo. Pitbull? Parece mais um cachorro correndo atrás do próprio rabo. E quatro, a verdade que se confunde com um mistério: qual a função de Renato Abreu? Ontem, na transmissão da Globo, até Júnior se impacientou. Perdoem: não é “até Júnior”, é principalmente Júnior, que jogou naquela posição como ninguém.

A proposta de encurtar o jogo, aproximando os jogadores em triângulos, foi uma ótima ideia. O problema é que dois vértices eram sempre Renato Abreu e Willians e coitado do terceiro vértice. Piorou no segundo tempo, quando o ar faltou de vez e os triângulos se transformaram em formas geométricas indefinidas.

Os pontos positivos foram o gol, Luiz Antônio, Ronaldinho e a destemida magnética. O gol porque muito bem construído e é qualificado para o desempate. Luiz Antônio porque voltou com a mesma desenvoltura. Ronaldinho porque esteve ligado o tempo todo e não jogou mais porque não havia bola nem parceria. E a magnética fazendo história no fim do mundo, o velho Moraes como um elo de ligação entre o Flamengo campeão mundial e garotos que sequer viram Zico jogar, representando quarenta milhões de fiéis.

Perdemos, mas são ferimentos leves. Jogando com seriedade, venceremos no Engenhão. E aí é bom repensar a quantidade de volantes, a vitaliciedade de Renato Abreu e encaixar Gonzalez e Vágner Love. Dá até para sonhar com um time. (fotos: Alexandre Vidal / Fla Imagem)

Real Potosí 2×1 Flamengo
25 de janeiro de 2012 – Taça Libertadores da América
Estádio Victor Agustín Ugarte – Potosí
Árbitro: Liber Prudente
Flamengo: Felipe, Léo Moura, Welinton, David Braz e Junior Cesar; Airton (Bottinelli), Luiz Antônio, Willians (Camacho) e Renato Abreu; Ronaldinho Gaúcho e Deivid (Negueba). Técnico: Vanderlei Luxemburgo
Real Potosí: Henry Lapczyk, Rony Jiménez, Claudio Centurión, Alberto Alarcón e Rosauro Rivero; Roly Sejas, Eduardo Ortiz, José Michelena (Nicolas Tudor) e Victor Hugo Angola (Mario Ovando); Sebastian Pol e Edgardo Brittes (Pastor Torres). Técnico: Victor Zwenger
Gols: Luiz Antônio aos 28 e Claudio Centurión aos 31 do 1º tempo; Edgardo Brittes aos 12 do 2º tempo.