O acaso e a coragem

Havia uma réstia de luz no início da partida contra o Duquede Caxias. Bola de pé em pé sem a ensebada protocolar de Renato Abreu, sem ostropeções de Willians. É um jogo mais límpido, mais fluente, mais simples. Semaquela bola que Renato Abreu prende, gira o corpo, olha para o meio e não vêninguém e então volta para passar para Júnior César, que corre, corre, correaté perder. 
Muralha joga de cabeça em pé. Quando toca em diagonal, tocacerto, um pouco à frente da passada de quem se desloca para receber. Com isso, otime poupa tempo e ganha espaço. Luiz Antônio guarda bem a subida do lateral etem fôlego para ir ao apoio. Também toca melhor e mais rápido que Renato Abreu.E Camacho fez o simples, toque ligeiro, porque estava ali pra isso e não paraimpregnar o jogo com um pretenso estilo, como faz Abreu.
Calma. Não estou dizendo que Muralha e Luiz Antônio são Xavie Iniesta. Apenas são promissores, e se tivermos que optar entre jovenspromissores e velhos decadentes, há alguma dúvida? Os dois sofrem com o mesmoproblema. São da base do Flamengo e, logo, se acham. Mal existem no mundo dabola e já metem um moicano, tranças e dreadlocks, imensos cordões dourados no pescoço.Isso atrapalha muito, mas é assunto para outro texto. E Camacho, bem, Camachosó não atrapalha. Eu jogaria com Bottinelli em seu lugar, mas o gringo não seajuda.
A réstia de luz brilhou mais quando Love fez 1×0 e teriailuminado mais se o mesmo Love não perdesse cara a cara o 2×0. Aí os carasempataram no segundo tempo, os garotos acusaram o golpe e foi um drama arrancaro 2×1, que só veio com Ronaldinho e para isso peço outro parágrafo.
Ronaldinho. No segundo tempo ele correu mais, bateu duasfaltas, deu uma finta bonita e chutou mal de canhota. Na hora do pênalti,chutou seco na costura, a melhor cobrança desde que chegou ao Flamengo. Ele temdefeitos, não é mais o mesmo, não vale 14 milhões para um clube que não temdepartamento de marketing, mas o problema não é ele. Bom, isso também é assuntopara outro texto.
O que quero dizer é que os desfalques e o acaso obrigaramJoel a pensar um time mais solto. Se esse time mais solto vencer o Emelec, podeser uma mudança de modelo que aumente a nossa vida na Libertadores. É tristeisso, me lembra Parreira na Copa de 2006 dizendo que a trilha sonora da seleçãoera “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”. Cazzo, o acaso? Comtantas maneiras de formar um time, nós temos que contar com o acaso?
Bom, o acaso tirou os volantes do Flamengo da parada. Talvezaté com mais força do que o desejável, porque eu gostaria de ver uma zaga comGonzáles e Aírton, mas o fato é que abriu espaço para quem trata a bola umpouco melhor. Com um pouco de coragem do distribuidor de camisas e de quem asreceber, haveremos de ter um Flamengo melhor já na quinta.
O acaso ajudou. Mas chega de distração e vamos jogar bola.Chegou a hora de dizer até onde esse time pode ir.
Duque de Caxias 1×2 Flamengo
4 de março de 2012 – Taça Rio
Estádio Cláudio Moacyr – Macaé
Árbitro: Péricles Bassols Cortez
Flamengo: Felipe (Paulo Victor), Galhardo, Marcos González,David Bráz e Junior Cesar; Muralha, Luiz Antonio, Camacho e Ronaldinho Gaúcho;Deivid (Negueba) e Vágner Love. Técnico: Joel Santana
Duque de Caxias: Fernando; Arilson, Paulão, Jorge Fellipe eRodrigues; Romário, Juninho, Raphael Augusto (Danilo Rios) e Jefinho; Watthimem(Rafinha) e Gilcimar (Laio). Técnico: Eduardo Allax
Gols: Vágner Love aos 15 do 1º tempo; Rodrigues (falta) aos17 e Ronaldinho Gaúcho (pênalti) aos 37 do 2º tempo.

Mais do mesmo: empate medíocre e Mezengas fora da Copinha

Contra um time apenas esforçado, o Flamengo empatou na Copinha. Esta frase define qualquer um dos três jogos do Flamengo na Copa São Paulo de 2012. O de hoje, um 2×2 contra o São Carlos, eliminou Los Mezengas do torneio.
Os garotos até começaram pressionando, Muralha perdeu um gol incrível, mas logo aos 3 minutos, em uma falha coletiva da zaguinha, o São Carlos fez 1×0. O Flamengo virou com um gol sem querer de Muralha e uma cabeçada do zagueiro Samir, que hoje jogou no lugar de Pablo. Faltava mais um gol para se classificar no saldo, mas Lorran fez um pênalti bobo e novo empate.
O curioso é que mesmo com o 2×2 o Flamengo precisava de apenas mais um gol. A vitória por 3×1 daria a classificação no desempate pelo saldo de gols e a vitória por 3×2 daria a classificação no desempate por… cartões amarelos!
Embora tenham jogado o segundo tempo com mais posse de bola, Los Mezengas pouco criaram. A melhor chance foi aos 36, com Matheus-filho-do-Bebeto na pequena área. O chute saiu em cima do goleiro do São Carlos. Ainda houve um abafa final, com o goleiro Caio indo para a área em um escanteio, mas o golzinho salvador não saiu.
Depois de vencer o torneio em 2011, o Flamengo é eliminado da Copinha na primeira fase, com vários destaques do time que foi campeão. Desempenho lamentável de Lorran, Muralha e Adryan, especialmente deste último, e apenas razoável de Thomás. Dos que só conheci agora, nenhum destaque positivo. Os laterais Felipe Dias e Digão foram muito mal, e os zagueiros bateram cabeça em todos os jogos.Yguinho, até esforçado, é o típico jogador que justifica chamar os juniores rubro-negros de Los Mezengas.
Acabou.
Copinha, adeus.

Flamengo 2×2 São Carlos
9 de janeiro de 2012 – Copa São Paulo de Futebol Júnior
Estádio Luís Augusto de Oliveira – São Carlos
Árbitro: Flávio Rodrigues Guerra
Flamengo: Caio, Digão, Fernando, Samir e Felipe Dias (Rafinha); Victor Hugo, Muralha, Lorran e Adryan (Fernandinho); Yguinho (Matheus) e Thomás. Técnico: Paulo Henrique
São Carlos: Guilherme, Ryan (Ricardo Silva), Alexandre, Rodolfo e Maurício; William, Maicon e Stéfano; Paulo Henrique, Kennedy e Lucas Torres (Heuler). Técnico: Vardão
Gols: Paulo Henrique aos 3, Muralha aos 10, Samir aos 23 e Lucas Torres (pênalti) aos 29 do 1º tempo.

Lá vem 2012

Acabou o período de férias. A bola vai rolar na Copinha, logo em seguida o time profissional se apresenta e o Flamengo vai outra vez dominar os assuntos entre nós.
Copinha. Não sei quando a competição começou a ser chamada assim. Quando eu era criança, tinha nome e sobrenome: Taça São Paulo de Futebol Júnior. Minhas lembranças alcançam uma época em que o campeonato não era um pegue-e-pague para os empresários. As melhores delas estão em três posts antigos, dois no Flamengo NET (aqui e aqui) e um no História do Futebol (bem aqui).

Amanhã, dia 3, o Flamengo começa a defesa do título conquistado ano passado encarando o Aquidauanense, em São Carlos, às 21 horas. Diferente dos anos 80 e começo dos 90, quando nem as rádios transmitiam os jogos dos clubes cariocas nas primeiras fases, a peleja será transmitida por quatro canais: Sportv, ESPN Brasil, Band Sports e Rede Vida.
No meio, temos vários jogadores do time campeão no ano passado. Na defesa e no ataque, me parece que é uma rapaziada nova. O técnico ainda é o Paulo Henrique, ponta-esquerda dos profissionais em 1985, contestado pelo pessoal que acompanha as divisões de base mais de perto. Eu só vi o trabalho dele na Copinha do ano passado, e gostei.
Não há como fazer apostas, é um campeonato imprevisível. Tenho esperanças de uma boa campanha, já que alguns jogadores são bem experientes apesar da pouca idade – gente como Adryan, Thomás e Muralha, e alguns remanescentes do time bicampeão.
Até amanhã.