O nome (e o sobrenome) do inimigo

A (falta de) gestão de Patricia Amorim como presidente do Flamengo é um elogio ao absurdo. Patricia foi nadadora de feitos medianos e é vereadora. Como bem diz um amigo, o vereador é o contínuo da política. Eis Patricia Amorim: nadadora de uma Olimpíada sem classificar-se às finais e garota de recados na vida pública. Elegeu-se presidente de uma Nação.

Não podia mesmo dar certo.


No primeiro ano, Patricia viu o Flamengo ganhar as páginas policiais, fez o time chegar atrasado a um jogo decisivo de Libertadores porque queria um lugar no ônibus e mostrou-se perdida diante do Flamengo do futebol, um tanto maior do que aquele das piscinas. Perdida: semeou a discórdia entre Braz e Andrade no primeiro semestre, trouxe Zico no segundo. Trouxe para traí-lo, expondo o ídolo maior ao escárnio em praça pública. O Flamengo flertou com a segunda divisão.

No segundo ano, Patricia usou de um dinheiro que o Flamengo não tinha para contratar um ícone em decadência e entregou o futebol, de porteiras fechadas, a Luxemburgo. Venceu campeonatos pequenos, a Copa São Paulo e o campeonato estadual. Aproveitou o brilhareco e saiu em todas as fotos. Mas deixou o clube à deriva, sem patrocínio, sem lenço, sem documento.

No terceiro ano, Patricia demitiu Luxemburgo horas depois de garantir ao vivo na Rádio Tupi que o técnico seria mantido, só mais um ato da crise iniciada antes mesmo de o ano futebolístico começar, feito notável até mesmo para uma ignorante em futebol como ela. Tentou apagar a fogueira da crise com gasolina: contratou o abominável Joel Santana que abandonara covardemente o Flamengo em 2008. O time foi eliminado de modo constrangedor na primeira fase da Libertadores e não disputou sequer uma final de turno no estadual.

Ignoremos os detalhes de histórias como fazer do lamentável e omisso Luiz Augusto Veloso diretor de futebol, de escrever cartas abertas dizendo-se boa presidente porque os parquinhos estão cheirando à tinta e de deixar claro que o presidente de fato é o seu marido, torcedor do Fluminense. Ignoremos, porque não precisamos dos detalhes para entender que Patricia Amorim vem esbulhando o Flamengo nos últimos três anos.

Essa derrota para o Vasco ocorrida há pouco não é nada perto de todas as demais derrotas impostas ao Flamengo por Patricia Amorim e sua trupe. Aliás, vencer o estadual seria fazer uma cirurgia plástica em paciente com metástase.

A derrota no estadual será assim combatida por Patricia Amorim: demitirá Joel Santana (não é mérito, posto que jamais deveria ter sido contratado) e desviará os tiros a ela endereçados a quem até merece ser atingido, mas merece menos.

Não esqueça, amigo rubro-negro, o nome do maior inimigo do Flamengo hoje.

É Patricia.

E o sobrenome é falta de vergonha na cara.

A arte da vingança

A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena. Quem nunca ouviu essa frase do lendário seriado Chaves? Uma frase carregada de bons valores e de sentimentos nobres. Mas que se foda o Chaves e a pureza da alma! Com o Mengão não tem essa não. Gostamos de nos vingar, com requintes de crueldade. Vamos a alguns exemplos da desumanidade rubro-negra:

Botafogo nos ganhou por 6 X 0 em 1972 e nos vingamos em 1981 e aplicamos os juros em 1985. Palmeiras nos eliminou em 1979 e no ano seguinte foi o nosso troco. Vasco tirou onda com o gol do título de 1988 de um tal Cocada e a nossa desforra dura até hoje: nunca mais ganharam uma final da gente.

E o jogo que recordaremos hoje é sobre outra vingança à nau portuguesa. Nesse mesmo ano de 1988, Flamengo e Vasco se enfrentaram seis vezes. Vencemos a primeira partida e perdemos as outras cinco, para delírio dos vascaínos que entoavam a todo canto que haviam feito a quina e blá, blá, blá… Todas essas derrotas foram em um intervalo de tempo de quatro meses.

Incomodava-me demais essa marca negativa, ainda mais para um time de Portugal. Mas nossa vingança tardaria, mas chegaria. Ela começou a acontecer no ano de 1990. Vencemos o Vasco por 1 x 0 pelo Campeonato Brasileiro daquele ano, com gol do novato Nélio. A segunda vitória foi no Brasileirão do ano seguinte, que foi antecipado para o primeiro semestre. Vitória acachapante por 3 x 0. Depois veio a Taça Estado do Rio de Janeiro, onde ganhamos por 2 x 0, com dois gols de Marcelinho. A quarta vitória foi na Taça Guanabara, de virada por 2 x 1, com o centroavante Gaúcho tirando onda de Seu Boneco da escolinha do Professor Raimundo.

Finalmente chegava o jogo que concretizaria a vingança. A partida valia pela Taça Rio de 1991 e o Flamengo vinha fazendo uma campanha impecável no segundo turno, disputando ponto a ponto com o Botafogo a conquista da competição. Esse jogo também foi marcado pela inauguração do primeiro bandeirão do Flamengo, confeccionado pela Torcida Jovem. Ainda está viva em minha memória, a imagem daquela enorme bandeira sendo desfraldada para delírio do lado rubro-negro e silêncio da atônita torcida vascaína.

Além da motivação pela liderança e da oportunidade de vingar-se três anos depois, enfrentar o baiano Bebeto sempre era um ingrediente a mais para o clássico. O jogo teve amplo domínio do Flamengo, que possuía um timaço. Gaúcho e Júnior estavam no auge e a torcida estava em sintonia com a evolução do time. Verdadeiro espetáculo na arquibancada, com coreografias sincronizadas e alegria incontrolável. À medida que os gols saíam e a forra se concretizava, o êxtase ia tomando conta da atmosfera rubro-negra. A sensação de alívio ao tirar aquele incômodo fardo era sublime. A quina agora era nossa e ainda mais bela, pois não foi feita em jogos subsequentes, onde uma má fase explica, e sim em quatro torneios diferentes. A vingança foi digerida friamente, assim como o ditado sugere.

Hoje pela Taça Rio 2012, mais um clássico dos milhões agita as torcidas. Se o Bacalhau for esperto e ligado na história sabe que logo mais pode ser de novo vítima da envenenada alma rubronegra. Porque Deivid está sinistro, com sede de revide e também não está nem aí pra lição de moral de seriado mexicano.

Flamengo 2 x 0 Vasco da Gama
24 de novembro de 1991 – Campeonato Carioca
Estádio do Maracanã – Rio de Janeiro
Público: 42.734 pagantes
Árbitro: Claudio Vinícius Cerdeira
Flamengo: Gilmar, Charles Guerreiro, Gotardo, Júnior Baiano, Piá, Uidemar, Júnior, Nélio (Marquinhos), Zinho, Paulo Nunes (Fabinho) e Gaúcho. Técnico: Carlinhos
Vasco: Carlos Germano, Dedé, Torres, Missinho, Cássio, França, Luisinho, Bebeto, Sorato (Mauricinho), Bismark, William. Técnico: Antonio Lopes
Gol: Zinho, aos 36 do 1º tempo e Fabinho, aos 10 do 2º tempo.

Bacalhau à moda Rubro Negra

 

Sou ateu, graças a Deus, mas confesso que gosto das fábulas da páscoa. A do cara que é crucificado e ressuscita, a do amigo-da-onça que trai o cara com um beijo maldito por trinta dinheiros, o daquele povo perdido em busca da terra prometida, a do velhote da táboa com idéias polêmicas que atravessa o mar vermelho a pé… Deve ser culpa das sessões da tarde e da mistura psicoestimulante de chocolate com aqueles efeitos especiais tão maneiros. E vocês, vão me dizer que não vibram cada vez que o velho Moisés abre o mar em dois?!?

Pois minhas aulas de religião serviram para alguma coisa foi para saber que todos essas fábulas falam da mesma coisa. Conforme a própria origem da palavra páscoa são histórias de transformação, de superação, de sacrifício e de passagem. Histórias de gente que rala e consegue o impossível. Pergunta pro tal coelho que conseguiu botar um ovo de chocolate.

Não é difícil usar esses mitos milenares e universais pra fazer analogias. Se Deus existisse seria a Patrícia Amorim: não tem a menor idéia do que está fazendo, manda menos que o Diabo e ainda é capaz de mandar o próprio filho para cruz se o coitado for mais famoso e amado do que ela. O Judas sem dúvida seria o Ronaldinho, aquele que se vendeu por trinta dinheiros e que esteve presente na ressurreição do crucificado Deivid. E o velhote Moisés? Acho que é o Joel mas nossa ida à terra prometida (as oitavas da Libertadores) parece mesmo precisar de um milagre.

O primeiro milagre Joel já fez. Ele conseguiu dividir o Mar Vermelho e Preto em dois. Os que no sábado de aleluia torciam pelo Flamengo e os que torciam contra, com a esperança de com a derrota as mudanças se farão mais urgentes. Ora, amigos rubro negros, é nessas horas apocalípticas que devemos estar unidos e ter coragem. Isso mesmo, coragem. Na língua oficial da Libertadores da América, un par de huevos. E na língua do Rondineli catalão, Carles Puyol, um par de pebrots (pimentões). Ovos ou pimentões são portanto ingredientes impescindíveis das , aquelas que acontecem exatamente quando tudo parece estar perdido.

Por isso é um pecado desperdiçá-los. Jamais o faça, irmão rubro negro. Jogar um ovo, símbolo da vida, para agredir a nossos soldados só pode ferir a alma da nossa enorme Família Urubu. Ainda mais quando tem tanto rubro negro esfomeado por aí. (Vagner Love, deixa de ser fominha!) Esse ovo podia estar alimentando o grito de mais um rubro negro, e empurrando o time a mais uma vitória impossível. E são essas vitórias as que reúnem as famílias para comer bacalhau num domingo qualquer como o da Páscoa.

Por isso eu criei uma receita especial para a família rubro negra, feita com bacalhau destroçado. Em homenagem ao nosso rival Vasco, sempre de molho, pronto para o consumo. É uma receita típica catalã adaptada ao gosto rubro negro. Além de serem a terra do F. C. Barcelona, a Catalunya tem uma culinária especializada em fazer grandes maravilhas com o uso minimalista de seus ingredientes mediterrâneos. Nada muito diferente, nem muito elaborado, mas tudo delicioso. Que sirva de inspiração para o gourmet Joel Santana, especialista em macarrão com salsicha. Que mantenha fechada a boca do vomitivo Zé (Marín) das Medalhas, nem que seja por alguns minutos, afinal saber cozinhar deveria ser motivo de orgulho para todos os homens e mulheres. E que sirva para a Nação se purificar, se unir e repor as energias para o desafio de quinta-feira.

Se você não acredita no time, está de saco cheio com a diretoria, com a nossa presidenta, vá ao estádio. Sim, vá ao estádio por mim, que estou a mais de 9 mil quilômetros do meu Mengão. Sim, vá ao estádio pela Nação Rubro Negra. Afinal seus irmãos rubro negros sofrem os mesmos flagelos que você nesse momento e estão loucos para cantar ao teu lado. E que Zico todo poderoso nos traga mais um delicioso milagre.
Bon profit, Nació Vermella i Negra!

Rir pra não chorar…

Nessa má fase, o ódio está me consumindo. O que já praguejei de gente essa semana não está no gibi. Se minha praga fosse eficiente, Patrícia Amorim, Joel, Ronaldinho e companhia estariam em outro plano espiritual. Sorte deles é que nem para isso presto.
Queria postar algo legal para esse Flamengo e Vasco, mas não sei fazer oba-oba, muito menos poesia. Para amenizar e tentar relaxar um pouco, lembrarei de um jogo “esquecível” do ano de 2003. Era aniversário de 53 anos do Maracanã e a torcida do Vasco estava em maior número. Os dois times estavamem péssima fase, mas o Flamengo havia acabado de perder a Copa do Brasil para o Cruzeiro. Nada de muito legal, porém o jogo foi recheado de cenas engraçadas. Vale à pena dar uma conferida no vídeo, pois além de dar boas risadas, talvez venha deixá-los menos revoltados.

Hoje o cenário é mais ou menos o mesmo. Torcida do Vasco mais animada e a do Flamengo desmotivada. Mas a gente já sabe quem sempre sorri por último.

Flamengo 2 x 1 Vasco
15 de junho de 2003 – Campeonato Brasileiro
Estádio do Maracanã
Público: 13.920
Árbitro: Jorge Rabello
Flamengo: Diego, Luciano Baiano, Fernando, André Bahia, Cássio, Fabinho, Jônatas, Fabiano Eller, Igor (Ibson), Zé Carlos, Jean(Vinícius Pacheco). Técnico: Nelsinho Batista.
Vasco: Márcio, Russo (Claudemir), Wescley, Wellington Paulo,Wellington Monteiro, Da Silva, Rodrigo Souto (Morais), Marcelinho Carioca, Souza (Ely Thadeu), Cadu, Marques. Técnico:Antônio Lopes
Gols: Cadu aos 9, Zé Carlos aos 12 do 1º tempo e  Cassio aos 43 do 2º tempo.

Cair, levantar, cair, levantar…

Recordarei o passado quinze de Março, uma quinta-feira, como um dos dias mais boleiros da minha vida. Desses que ficam marcados na pele. Estava tuitando com amigos rubro negros quando vi que Llorente tinha marcado um gol contra o Manchester. Liguei na hora tv e vi o show do Athletic Bilbao do Loco Bielsa encima dos Reds. A Espanha inteira estava vibrando via twitter com aquele jogo.Vi um vibrante time vestido de vermelho, branco e negro, com uma torcida alucinada, com belo toque de bola, muita raça, despachando com propriedade um time inglês. Chegaram logo ao segundo gol e podiam ser uns três, quatro… Só que o terceiro gol dos bascos não veio e Wayne Rooney descontou com um golaço. Faltavam 10 minutos. Pensei: ih rapaz, o time inglês vai crescer agora.

 No primeiro jogo pelas oitavas de final da Europe League os rojiblancos tinham despachado o atual vice-campeão europeu com um histórico 2-3 em pleno Old Trafford. Se fizessem dois gols os ingleses podiam levar a disputa pra uma épica prorrogação. Só que os bascos não não deram chance alguma ao Manchester, e Bilbao se transbordou numa imensa “kale borroka” festiva e pacífica.De todos os cantos do mundo, sinais de admiração pelo jogo daquele Athletic ousado, lutador, trabalhador. Admiração pela filosofia do obcecado Marcelo Bielsa, nacido em Rosário, ex-jogador e técnico do “rojinegro” Newell’s Old Boys,  e possivelmente um dos professores de Pep Guardiola. Admiração pela raça dos seus soldados: Llorente, Muniain, Iraola, Ander Herrera…  Em um país onde reina o bipartidismo de Barça-Real Madrid ver um time formado só por bascos, navarros e riojanos chegar a tal feito era motivo de orgulho para qualquer amante do bom futebol. Por outro lado, sir Alex Ferguson teve que engolir a própria arrogância depois de ter reconhecido que não havia estudado o adversário.

Que bonito ver aquela festa na Catedral, casa do Athletic, um verdadeiro caixão que reverbera os piores pesadelos dos adversários, arquétipo dos quadrados estádios castelhanos, do Bernabéu à Bombonera. Já o Engenhoca é um escorredor de macarrão hi-tec, com seu jeitão de nave espacial espatifada sem engenhosidade, por onde se infiltram nossos sonhos e escoam nossos gritos. Isso quando nossos gritos conseguem a façanha de chegar ao estádio, claro. Esse enorme monumento ao mal feito só podia ter o nome de João Havelange e ser (mal) gestionado pelo Foguinho.

Ver a Catedral lotada me deu uma saudade eterna ao Maracanã que eu ajudei a lotar em 1992 e que, desde então, só foi encolhendo. Nosso Coliseu torturado, roubado, estuprado, assassinado, dissecado e empalhado, que a cada dia assombra e indigna os craques do passado. O dia que descobrirmos que estamos órfãos do nosso querido estádio e que ainda por cima, pagamos caríssimo a conta do assassinato, será a hora de dar licença a um Justin Bieber da vida ou às preliminares de luxo chamadas Olimpíadas. Parece que foi na Bélgica, quando fizeram uma grande reforma urbanística no come que inventaram esse negócio de pegar um prédio velho e reformar por dentro deixando só a fachada. Daí vem a expressão “de fachada”. Por isso na Bélgica chamar alguém de arquiteto é um insulto. E o Maracanã do futuro é de fachada. Já dizia minha vó: por fora bela viola, por dentro pão bolorento.

Mal terminou o jogo e fui correndo jogar uma pelada num torneio com um time de médicos disposto a dar o sangue pela vitória. É um time é tão bom que se chama Esfínter de Milanus. Acho que se enfrentássemos o pequeno Margatania seríamos goleados.

Perdíamos por 1-0 mas conseguimos segurar bem o primeiro tempo. No começo do segundo uma bola foi ao alto dentro da área. Eu corri para dominar com o peito e tentar nosso primeiro chute a gol. Entrei numa máquina de lavar. Quando saí estava deitado do chão, minha cabeça doía bastante e meu supercílio sangrava. Só pude imaginar o que tinha acontecido quando vi um companheiro meu também estendido no chão. KO.Perdemos, como sempre (6-1), e levei um ponto na cabeça para não esquecer a lição. Não adianta nada vontade (ou ansiedade) sem a mínima coordenação tática e motora. Daí fiquei acordado até as duas da manhã apesar de cansado, chateado, ferido.

O que eu vou fazer se vivo o futebol dos joelhos à cabeça?Mal começa o jogo e o locutor argentino da Fox Sports mandou essa: aposto que o Olímpia ou empata ou ganha o Flamengo. Que filho da mãe. Imagina o que ele recebeu de gentilezas pela internet. Depois ele soltou um dado que eu ignorava: o Flamengo nunca ganhou do Olímpia pela Libertadores. Sério? Como assim somos fregueses do Olímpia? Os caras tem mais Libertadoes que a gente e vamos pro jogo como se tratassem de um Resende paraguaio?

 Mas o que importa é o carioca pra livrar a barra né? Estranho, não foi esse mesmo técnico que riu do gordinho Cabañas? Pois em campo também vi aquele mesmo Flamengo que tomou de 4 no Engenhão do Universidade de Chile. Sufocado, estranho, mole, desatento, dominado. Isso só mudou com uma jogada indidual do Vágner Love e conclusão precisa do Botinelli. Não foi por acaso, pois são raros dois raros jogadores do nosso elenco que chamam a responsabilidade. Às vezes com mais músculo que cérebro, mas não podemos condená-los por omissos.Depois que o Luiz Antôno fez outra JOGADA INDIVIDUAL, Ronaldinho resolveu se juntar à festa. Bateu o pênalti e fez 2 a 0.

Com a vantagem R10 começou a fazer graça e numa dessas fez ótimo passe ao Luiz Antônio que concluiu como gente grande. E eu aqui em casa sem poder gritar de alegria. Chacoalhava no sofá à frente do computador vibrando de orgulho pelo meu Mengão. Orgulho desse moleque que outro dia tinha sido vaiado e estava destruindo no Engenhão.Aí chegou o momento em que ou o Flamengo goleava ou tirava o pé do freio tocando inteligentemente a bola, ou dando bicão mais ao estilo Joel. Escolhemos não fazer nem uma coisa nem outra. Coletivamente não éramos nenhuma maravilha e resolvemos brincar com a bola, fazendo malabarismos e dando toquezinhos de calcanhar. Ultrapassamos o fino limite entre o futebol bem jogado e o futebol rococó. Síndrome de Ronaldinho. É provável que essas frescuras tenham servido de combustível pro time do Olímpia que tem um ótimo técnico cujas mudanças afetaram o jogo do Flamengo.

Acharam uma falta meio marota meio besta, típica da nossa defesa. E acho até que nosso goleiro colocou mal a barreira. Mas era um gol só. O problema é que daí o Joel fez o favor de pôr a pior opção que tinha no banco. Negueba não é opção para segurar a bola, nunca foi. E se você coloca ele do lado do Galhardo com cartão amarelo está pedindo para ter problemas. Não acho que fosse necessário pôr um zagueiro, algo que não seria má idéia, mas até o Deivid teria melhor resultado, segura melhor a bola, ajudaria o Love que já tinha sentido a perna no quarto minuto de jogo. Mas não, por incompetência dos nossos jogadores e do treinador tomamos 3 gols em menos de quinze minutos. E o Olímpia foi para casa com um ponto lutado e eu fui pra cama com meu ponto na cabeça.

Recomendo rever o jogo. Melhor ainda se for com a narração gringa que dá de dez nas transmissões furrecas do Brasil. Flamengo 3 x 3 Olimpia 15 de março de 2012 – Engenhão.

Fui escrevendo esse texto enquanto deixava a raiva passar. Mas fiquei até com vergonha do meu pontinho. Vergonha infinita do Flamengo, mas por outro motivo. Ninho do Urubu? Um ninho devia proteger suas crias, não o contrário! Infelizmente nada melhorou e ainda gastamos energia com o carioca mais medíocre que já vi. Resultado: o jogo de quarta-feira não teve o enredo muito diferente. Sinceramente, se o Paulo Vitor não tivesse feito uma defesa milagrosa no primeiro tempo do primeiro jogo acho que íamos perder do mesmo jeito, achando algum gol pela inspiração do Love ou pelo “par de cojones” do Botinelli. O resto é a costela milionária do Ronaldinho, a prancheta esclerosada do Joel e o marido caga-idéias da Patrícia que por enquanto não tem como mudar.

O lance do segundo gol do Olimpia para mim é a imagem desses dois jogos. Zeballos luta no alto pela bola e cai, se levanta antes dos zagueiros e chuta desequilibrado, e cai. O Felipe faz boa defesa mas a bola fica ali dando bobeira na área. Outra vez ele levanta e manda a bola para as redes do Flamengo. Cair, levantar, cair, levantar. Quem melhor souber cair e levantar mais perto estará de uma vitória. Foi assim que o Olimpia se recuperou do 3 a 0 do primeiro jogo. O Flamengo devia pelo menos tentar lembrar daquele memorável 4-5 na Vila Belmiro.

Só que quem contratou o Natalino pensando na arrancada de 2007 entende menos de futebol do que a África do Sul. Ou então enganou todo mundo e já está prevendo um repeteco de 2005. O Joel só mudou numa coisa: virou um sem vergonha arrogante. Porque qualquer time que toma 6 gols de um adversário devia ter vergonha disso, principalmente se for treinado por um ex-zagueiro retranqueiro como ele. Já se foi a época do bonde-sem-freio e sua irritante invencibilidade. Os times do Joel Santana tem mais vocação para montanha-rusa. Aquele trem sem maquinista, teóricamente divertido, mas que só nos fazem sofrer, entre a ilusão da subida, a aceleração histérica da caída que precede o gozo de virgem imediato à subida, para no fim das contas voltar a descer desesperadamente ao mesmo lugar que estávamos. O melhor das montanhas-rusas é a hora em que acabam. Estou torcendo para que seja logo.

Pena que essa brincadeira pode nos custar a vida na Libertadores.Só nos resta fazer as malditas e inglórias contas para classificação. O que temos que admitir é que somos fregueses do Olímpia e fregueses do Pelusso. Humildade não faz mal a ninguém e não adianta pendurar no pescoço um out-door com a frase “Flamengo é Flamengo” que isso não ganha jogo. Tem uma coisa que o futebol brasileiro devia aprender. Só com trabalho, trabalho e mais trabalho (e tome tempo) seríamos capazes de fazer um time vencedor, uma geração espetacular com um futebol que tem aquele click que nos enche os olhos de orgulho. Infelizmente vejo que estamos indo no caminho oposto: pagando um milhão de reais a um cara que não joga, desmontando dia-a-dia o projeto anterior, adotando uns jogadores e prejudicando outros, voltando a treinar na Gávea, passando mais um mês sem patrocinado master, falando todo tipo de besteiras na imprensa, e tome besteiras, e cada dia mais…é bobagem que não tem fim…

Mas ainda bem que está chegando o Adriano. Com ele tudo vai mudar, nem vamos mais precisar de cartilha de boas maneiras. Com o Imperador vamos botar o pé na estrada. Com o Pé inchado de cachaça da Vila Cruzeiro o Flamengo vai finalmente trocar o disco.

PS: Atenção, esse vídeo contém uma música tão ruim quanto a atual fase do Flamengo.
PS2. Ontem voltei a jogar uma pelada com o Esfínter de Milanos. Nunca joguei tão mal. Numa jogada estava de costas para o gol, não dominei a bola e dei de presente o contra-ataque ao adversário que marcou o gol. Acho que perdemos outra vez por 6-1, talvez mais. A diferença entre eu e o R10 é que fico puto quando perco e não recebo um milhão por mês.
PS3: Devia ter ficado em casa vendo o jogaço Schalke 2 – 4 Athletic de Bilbao.

O Pavoroso Joel e suas criaturas, os volantes híbridos

Quando o apego por volantes híbridos (cabeças-de-bagre compernas-de-pau) parece já ter esgotado todas as suas variações, Joel Santana,cujo nome escrevi pela última vez e doravante será chamado apenas de O Pavoroso,se superou. Willians, volante híbrido juramentado, foi escalado como meia deligação.
O mundo muda em velocidade alarmante, é fato. Todavia, meiade ligação ainda deve ser o sujeito capaz de acertar passes ofensivos, derevezar com os laterais e de se aproximar dos atacantes com algo a ofereceralém da baba viscosa do cansaço provocado pela correria estéril. Willians não éum meia de ligação. Willians machuca a bola. Willians tranca o jogo. Willians éum erro, um ponto-e-vírgula que separa sujeito e predicado.
Quando Willians é escalado como volante híbrido, roubaalgumas bolas. Só. Willians não sabe o que fazer com as bolas que rouba e entãotoca para seu superior, Renato Abreu Arantes do Nascimento ou, na falta dele,para o Júnior César. Aí o Júnior César perde a bola e Willians tem a chance dedar mais alguns carrinhos e iludir os desatentos que pensam: puxa, Willians nãodesiste.
Não parecia haver algo pior do que esse Willians que rouba,passa mal e rouba de novo, até O Pavoroso escalá-lo como meia de ligação, àfrente de Muralha e Luiz Antônio. Como não estava em posição de tentar bloquearo jogo do adversário, Willians passou a tarde bloqueando o jogo de Muralha eLuiz Antônio. Os garotos tentavam sair para o jogo, mas morriam nesse obstáculocamuflado chamado Willians Armador. Era como se houvesse um muro separando otime do Flamengo ao meio. Tudo morria em Willians.
Ao escalar dois ou três volantes híbridos, o mau treinadoresconde sua incompetência porque passa a falsa impressão de que a culpa não ésua – afinal, o que fazer com jogadores que não sabem passar a bola? Porém,quando os volantes sabem jogar, como é o caso de Luiz Antônio e Muralha, ficaescancarado que o time é mal treinado, que não tem opções táticas, que não temuma mísera jogada ensaiada.
O jogo de ontem escancarou a verdade sobre Willians. Quandoé escalado como volante, ele apenas não joga, não produz, não tem serventiaalém de alguns carrinhos cenográficos. Porém, quando escalado mais avançado,Willians atrapalha o próprio time e anula essa grata surpresa que é o jogo deMuralha e Luiz Antônio.
A partida contra o Friburguense era tão fácil de ser vencidaque o gol da vitória veio em passe de Paulo Sérgio e conclusão de Kléberson. Oproblema é que essa partida só foi jogada a partir da entrada de Kléberson. Atéentão, a partida era do Flamengo contra Willians e O Pavoroso, uma atrocidadeque ainda que se estendesse pela eternidade estaria condenada ao 0×0.
Friburguense 0×1 Flamengo
18 de março de 2012 – Taça Rio
Estádio Cláudio Moacyr – Macaé
Árbitro: Wagner do Nascimento Magalhães
Flamengo: Felipe, Galhardo, González, David Braz e JúniorCésar; Muralha, Luiz Antônio, Willians (Kléberson) e Bottinelli (Negueba);Thomás (Paulo Sérgio) e Diego Maurício. Técnico:Joel Santana
Friburguense: Marcos, Sérgio Gomes, Cadão, Diego Guerra eFlavinho; Zé Victor, Lucas, Marcelo (Diego Santos) e Jorge Luiz; Ziquinha(Marquinhos) e Rômulo. Técnico:GérsonAndreotti

Gol: Kléberson aos 35 do 2º tempo.

Ronaldinho, Barcelona, Flamengo e Darwin

Ainda me lembro de Janeiro de 2003 quando cheguei a Barcelona, cheio de esperanças de construir uma nova vida. Numa tarde gelada de inverno resolvi visitar o Camp Nou. Perto do estádio, me admirou ver uns pássaros verdinhos voando e fazendo algazarra nas árvores desfolhadas da cinzenta Travessera de Les Corts.

Aquilo era uma visão surreal do paraíso, como uma colagem do Miró. Perguntei a uma garota: que pássaro é esse? Um loro, disse ela me olhando como se eu fosse um ET. Me senti o mais estúpido dos estrangeiros, incapaz de reconhecer um simples periquito sulamericano em terras européias. Mas o que diabos faziam aqueles bichos soltos naquele frio? Como sobreviviam ao inverno europeu aquelas criaturas tropicais?

 Mais tarde, no passeio pelo estádio do F.C. Barcelona, vi a galeria de de ex-jogadores estrangeiros do clube. Entre eles: Evaristo, Marinho Peres, Roberto Dinamite, Romário, Ronaldo… A guia turística vendo que eu era brasileiro fez questão de comentar da briga entre Louis Van Gaal e Rivaldo. O meia já estava no Milan e o treinador holandês apesar de ter ganho uma longa queda de braço já estava na corda bamba. Eram anos deprimentes pro Futbol Club Barcelona, saudoso do Dreamteam e sem um futuro definido.Menos de um ano depois, numa mesa de bar, eu escutava um catalão resmungar indignado com os rumores sobre a contratação de Ronaldinho. Imagine só, ele preferia que o Barça contratasse o alemão Carsten Jancker!

Lamentavelmente nunca mais vi esse rapaz (adoraria perguntar pra ele se valeu a pena a contratação de Ronaldinho), mas em compensação nunca mais ouvi falar de Jancker…Contrariando aquele culé visionário Ronaldinho foi contratado e chegou sorridente ao Camp Nou para ser a antítese do “galático” Beckham. Lá estava eu na estréia de Ronaldinho no amistoso Troféu Joan Gamper em que empataram com Boca Juniors: 1-1 com gols de Tevez e Gerard. Não me lembro muito do Ronaldinho naquele jogo. Fiquei muito mais admirado com a torcida do Boca Juniors, onde acabei sentando com meu manto sagrado. Aqueles 3 mil argentinos calaram 87 mil culés. Como ainda havia algum catalão naquele espaço reservado aos visitantes atrás do gol sul, se ouvia alguém gritar: Sientate! Quiero ver el partido! E os argentinos respondiam cantando e saltando: Esto es fútbol, no es cine! Esto es fútbol, no es cine! Esto es fútbol, no es cine!

Mas logo viria o segundo jogo oficial do Ronaldinho no Camp Nou, diante do Sevilla. O Barça perdia por 1×0 e o gaúcho recebeu uma bola das mãos do goleiro, antes do meio campo, deu uma arrancada, driblou dois e meteu, com um chute de fora, muito fora da área, um golaço espetacular. Uma jogada que só alguém convicto de ser o gol em pessoa. Alguém que é capaz de decidir como e quando as coisas acontecem em campo. Um craque com a urgência visceral de provar ao Camp Nou, a Barcelona e ao mundo a que veio. Era seu cartão de visitas. Hola, soy Ronaldinho.

E esse filme durou 3 anos. Uma catarse de 3 anos de dribles, gols, jogadas espetaculares, títulos, vídeos e muita festa. Assim como havia feito o rubro negro Evaristo décadas antes o orgulho culé que o sendo o jogador mais decisivo da história do clube até então. E o torcedor catalão, apesar de ser historicamente pessimista, parecia que tinha visto um passarinho verde. O que ninguém imaginava é que esse filme estava destinado a acabar com a premiação de Ronaldinho como o melhor jogador do mundo. Depois disso o que se viu dele foram remakes baratos de filmes clássicos. Ronaldinho era refém do jogador espetacular que tinha sido. Quando muito algum lampejo para nos deixar claro que a qualidade continua ali, o que evidencia que o que faltava era vontade.

 O brasileiros se perguntavam porque aquele craque nunca veio jogar na seleção. Os espanhóis se perguntavam porque ele nunca voltou da copa de 2006. Me lembro bem do dia seguinte à eliminação do Brasil pela França. Eu estava de ressaca e tinha ido com amigos à praia de Castelldefels com uma camisa do Tabajara Futebol Clube. Joguei uma pelada com amigos brasileiros contra um combinado europeu: italianos e suiços. Sem ser nenhum craque deixei claro que ali havia um brasileiro orgulhoso do seu futebol. Meu prêmio, uma pelada de bêbados na praia e um dedão machucado. Como se fosse uma partida vital para recuperar o orgulho daquela seleção sem sangue, passível ante a derrota. Depois descobriria que na mesma hora, ali em Castelldefels, na mansão do gaúcho, Ronaldinho e Adriano enchiam a cara numa festinha particular pós-Copa. Nunca mais vi minha camiseta do Tabajara…

Ainda assim passei anos defendendo o decadente Ronaldinho em conversas com os torcedores do Barcelona. A maioria mais preocupada com o momento ideal de vendê-lo para ainda tirar proveito do negócio. Nunca consegui entender a maneira de ver o futebol daqueles torcedores que vão ao estádio como quem vai ao cinema. Na época eu via Ronaldinho como um puro sangue, que por não estar preparado para aquela dura corrida, sucumbiu aos vícios de uma cidade tão vadia de noite quanto trabalhadora de dia. A mesma cidade que apresentou a cocaína ao Maradona. E o mesmo club onde Johan Cruyff negociava com Romário: se você meter três gols contra o Atlético Madrid eu perdôo teu enésimo atraso aos treinos.

Os principais herdeiros desses três gols do Baixinho provavelmente são Ronaldo, Adriano e Ronaldinho. Grandes discípulos da filosofia sexo, cachaça e futebol. Bons malandros e perpetuadores da nossa cultura futebolística que premia a indisciplina. Otário é o que não sai na night, não reclama dos salários atrasados, se esforça no treino e tem amor à camisa. Porque se esse cara erra um gol decisivo, ele nem terá a desculpa do fraco pela cachaça, nem terá disfrutado das suas marias-chuteiras. Craque-malandro é o que ganha um milhão por mês, não treina, tira o técnico do time, não aparece nos jogos decisivos, mete os mesmos gols que o otário, é chamado pra seleção, e quando é vaiado tem o apoio de todos os companheiros.

Felizmente pro futebol existem clubes que pensam diferente. Um deles: Futbol Club Barcelona. Em 2007 vi, no Troféu Joan Gamper, um Ronaldinho lamentável caminhando em campo. Apesar dele abrir o placar com um gol de pênalti e da surra do Barça à Inter de Milão (5-0) era triste vê-lo. (Ainda estava anos luz daquele R10 que vi no empate com o Figueirense ano passado no Engenhão.) No time da Inter um Adriano melancólico, parecia que tinha abandonado o futebol mas tinha esquecido de sair de campo. No fim daquela temporada o Barcelona demitiria o paizão Frank Rijkaard e promoveria do time B o inexperiente Pep Guardiola.A primeira coisa que Guardiola fez como técnico do Barça foi dispensar Deco e Ronaldinho. Depois de tantos gols, tantos sorrisos e títulos o clube não teve dúvidas: preferiu dar ouvidos a um técnico inexperiente e dispensar o ex-astro da companhia. Guardiola diria na época: eu visse que ele quisesse voltar a ser aquele jogador ele ficaria no grupo. Hoje, quem ousaria contestar os títulos que ele conquistou depois de dispensar o R10?

Como bom herdeiro do Romário, Ronaldinho veio ao Flamengo, brigou com o Luxemburgo e conseguiu tirá-lo do clube. Mas ao contrário do Baixinho, que jogava seu futevolei na Barra, R10 decidiu jogar futevolei quinta-feira passada no Engenhão diante do Emelec. Pegou mal e ele foi vaiado, dentro da área não é lugar pra presepada. Pelo menos não pra aquela galera que pegou 3 horas de engarrafamento pra ver o gaúcho andar em campo. Ronaldinho já está velho o bastante para saber que o som que vem das arquibancadas é consequência das escolhas que ele faz dentro e fora do campo.

Quer um exemplo desagradável? O Flamengo tinha tudo para celebrar com um título no seu centenário em 1995. Mas a poucos minutos do fim, Romário (nobre deputado) decidiu não lutar por uma bola depois de um chute do ex-flu e tetra Branco. A bola foi recuperada e chegou aos pés do ex-rubronegro Aílton que entortou o Charles duas vezes e chutou, encontrando, dentro da área, a barriga do ex-rubronegro Renato Gaúcho. Sim, orgulho e vergonha, aplausos e vaias são lados da mesma moeda. Se você ganha um milhão de moedas por mês então… corra pelos aplausos!

Não espere parado pelas vaias!E aquelas criaturinhas verdes continuam voando e gargalhando pela cidade condal. Eu descobria mais tarde que aqueles passarinhos verdes são catorras argentinas(Myiopsitta Monachus) que eram vendidos como animais de estimação e foram abandonados. Mas devido a sua notável capacidade de adaptação foram capazes de se reproduzir e viraram praga na cidade. Hoje eu ousaria dizer as cotorras são hoje um símbolo da cidade, como as Ramblas, o Bairro Gótico e as obras de Gaudi. Mas talvez o símbolo mais internacional hoje seja Messi, essa cotorra argentina que dia após dia está dizimando os récords deixados por Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho…

 É lamentável ouvir vaias no estádio. Se dá tanto trabalho encher o Engenhão numa quinta à tarde é muito melhor voltar a ouvir o tradicional MEEEEEEENGOOOOOOO. Entendo que se o Flamengo fosse um organismo talvez a vaia seria uma tosse, um sinal de que algo vai mal. Mas se o médico decidiu fazer uma lobotomia pra curar a conjuntivite e ainda deixou o doente pegar sereno no carnaval, paciência!

Ao doutor Ronaldinho eu já receitei o manual para ele se adaptar ao Flamengo. Pelo jeito ele já conseguiu marcar num clássico. Parabéns, R10, você já se igualou ao Maxi Biancuchi! Pena que pouco depois baixou a Pomba Gira dos Pampas em você. Essa expulsão até que demorou, só não pensei que fosse tão ridícula e desnecessária. Acabou devendo o bicho ao Paulo Vítor, sem o qual hoje seria vilão. Ainda bem que foi numa pelada sem importância como esse Fla-Flu… Mas ô Ronaldinho! Sem ser decisivo (positivamente) em clássicos e jogos decisivos você se enfrentará algo muito pior que a vaia: a indiferença e o esquecimento.

Quanto à torcida, por mais que a vaia seja um sinal de que estamos vivos, e ainda que seja direcionada ao jogador, sabemos que afeta ao time inteiro. Principalmente aos mais jovens. Por isso sugiro que da próxima vez a torcida prefira uma canção à vaia. Vamos cantar ao mundo inteiro, nem que seja de raiva.

Um pequeno milagre e duas vitórias

Enquanto o Flamengo penava para fazer 1×0 no Emelec e atorcida vaiava Ronaldinho, a transformação mais importante do time passavaquase despercebida. Sem Airton, Willians e Renato Abreu, a bola foi mais bemtratada. Mesmo com Bottinelli claudicante como segundo volante a bola foi maisbem tratada, e a melhoria no tratamento a levou para os flancos, para osespaços certos, para a vitória magra, mas tranquila – depois de perder um golno início, o Emelec não ameaçou mais.
Welinton e seu talento para ser driblado

É primário: o time que arma melhor também se recompõe melhorquando perde a bola, eis que se bagunça menos quando sai para o jogo. OFlamengo de Luxemburgo era um desarranjo, uma disritmia, uma repartição públicade anedota, burocratizada pelo carimbo obrigatório de Renato Abreu. Não queJoel tenha feito algo para mudar, foi obrigado ao óbvio pelo infortúnio pessoaldos três cabeças-de-área-e-de-bagre que acabaram sendo a fortuna do time.

Com Bottinelli suspenso, o time foi mais escangalhado aindapara o Fla-Flu, a ponto de assistirmos a ressurreição de Kléberson. O horror seespalhou pelas redes sociais assim que foi confirmada a escalação do Penta.Ora, ninguém em sã consciência defende a titularidade de um jogador como Kléberson,já longe na curva descendente de sua carreira, mas era absolutamente certo queo jogo fluiria mais com ele do que com os botinudos que lhe antecederam.
Kléberson, mas pode chamar de Jason
O fato de Kléberson e Magal renderem mais do que seusconcorrentes não significa que são bons jogadores. Significa só que sãomelhores do que Renato Abreu e Júnior César. Nada demais, mas o time agradece.
Ronaldinho demonstrava um tanto mais de vontade até dar umacotovelada e uma solada no mesmo lance. Certo, o primeiro amarelo foiequivocado, mas ele poderia ser expulso só pelo segundo lance mesmo e estariatudo certo. Já falei de sua fraqueza mental, estado que compreende essasexpulsões esdrúxulas – foi assim contra Inglaterra em 2002, se você estiver compreguiça de ver outros exemplos neste link.
Só o que me importa, por enquanto, é o jogo de quinta-feira.Desprezo a Taça Rio e me preocupa a Libertadores. O grupo está embolado e umavitória contra o Olimpia permite ao Flamengo ir mais tranquilo para os doisjogos fora de casa. Para vencer o Olimpia será preciso jogar mais do que contrao Emelec, a julgar pelo que vimos na partida Olimpia 2×1 Lanús.
Talvez Joel opte pelo quadrado Luiz Antônio, Muralha, Bottinellie Ronaldinho, eis que a formação com três zagueiros se mostrou um risco contrao Emelec. González é bom e pode diminuir as deficiências de David Braz, masesperar que ele faça isso com Braz e ainda com o Welinton é atribuir-lhepoderes improváveis.
Meio na marra, o time vai ficando simples. Menospretensioso, mais funcional. Parece pouco, mas para quem começou o ano comAirton, Willians e Renato Abreu, é um pequeno milagre.
Flamengo 1×0 Emelec
8 de março de 2012 – Taça Libertadores da América
Estádio do Engenhão – Rio de Janeiro
Público: 27.826 pagantes (31.859 presentes)
Árbitro: Dario Ubriaco
Cartão vermelho: Marlon Jesús
Flamengo: Paulo Victor, Welinton (Deivid), González, DavidBraz; Léo Moura (Negueba), Muralha, Luiz Antônio, Bottinelli e Júnior César;Ronaldinho Gaúcho e Vágner Love. Técnico: Joel Santana
Emelec: Esteban Dreer, José Quiñónez (Carlos Quiñónez),Gabriel Achilier e Oscar Bagui; Pedro Quiñónez, Fernando Giménez, FernandoGaibor, Enner Valencia e Marcos Mondaini (Walter Iza); Luciano Figueroa (Vigneri)e Marlon Jesús .Técnico: Marcelo Fleitas
Gol: Vágner Love aos 3 do 2º tempo.
Flamengo 2×0 Fluminense
11 de março de 2012 – Taça Libertadores da América
Estádio do Engenhão – Rio de Janeiro
Público: 10.534 pagantes
Árbitro: Eduardo Cordeiro Guimarães
Cartão vermelho: Ronaldinho Gaúcho
Flamengo: Paulo Victor, Galhardo, González, David Braz eMagal; Luiz Antônio, Muralha (Rômulo), Kléberson e Thomás (Diego Maurício);Ronaldinho Gaúcho e Vágner Love (Deivid). Técnico: Joel Santana
Fluminense:
Diego Cavalieri,Jean (Lanzini), Leandro Euzébio, Anderson e Thiago Carleto; Edinho (Wallace),Diguinho, Souza e Wagner; Rafael Sobis (Samuel) e Rafael Moura. Técnico: AbelBraga
Gols: Ronaldinho Gaúcho (pênalti) aos 22 e Kléberson aos 24do 2º tempo.

O acaso e a coragem

Havia uma réstia de luz no início da partida contra o Duquede Caxias. Bola de pé em pé sem a ensebada protocolar de Renato Abreu, sem ostropeções de Willians. É um jogo mais límpido, mais fluente, mais simples. Semaquela bola que Renato Abreu prende, gira o corpo, olha para o meio e não vêninguém e então volta para passar para Júnior César, que corre, corre, correaté perder. 
Muralha joga de cabeça em pé. Quando toca em diagonal, tocacerto, um pouco à frente da passada de quem se desloca para receber. Com isso, otime poupa tempo e ganha espaço. Luiz Antônio guarda bem a subida do lateral etem fôlego para ir ao apoio. Também toca melhor e mais rápido que Renato Abreu.E Camacho fez o simples, toque ligeiro, porque estava ali pra isso e não paraimpregnar o jogo com um pretenso estilo, como faz Abreu.
Calma. Não estou dizendo que Muralha e Luiz Antônio são Xavie Iniesta. Apenas são promissores, e se tivermos que optar entre jovenspromissores e velhos decadentes, há alguma dúvida? Os dois sofrem com o mesmoproblema. São da base do Flamengo e, logo, se acham. Mal existem no mundo dabola e já metem um moicano, tranças e dreadlocks, imensos cordões dourados no pescoço.Isso atrapalha muito, mas é assunto para outro texto. E Camacho, bem, Camachosó não atrapalha. Eu jogaria com Bottinelli em seu lugar, mas o gringo não seajuda.
A réstia de luz brilhou mais quando Love fez 1×0 e teriailuminado mais se o mesmo Love não perdesse cara a cara o 2×0. Aí os carasempataram no segundo tempo, os garotos acusaram o golpe e foi um drama arrancaro 2×1, que só veio com Ronaldinho e para isso peço outro parágrafo.
Ronaldinho. No segundo tempo ele correu mais, bateu duasfaltas, deu uma finta bonita e chutou mal de canhota. Na hora do pênalti,chutou seco na costura, a melhor cobrança desde que chegou ao Flamengo. Ele temdefeitos, não é mais o mesmo, não vale 14 milhões para um clube que não temdepartamento de marketing, mas o problema não é ele. Bom, isso também é assuntopara outro texto.
O que quero dizer é que os desfalques e o acaso obrigaramJoel a pensar um time mais solto. Se esse time mais solto vencer o Emelec, podeser uma mudança de modelo que aumente a nossa vida na Libertadores. É tristeisso, me lembra Parreira na Copa de 2006 dizendo que a trilha sonora da seleçãoera “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”. Cazzo, o acaso? Comtantas maneiras de formar um time, nós temos que contar com o acaso?
Bom, o acaso tirou os volantes do Flamengo da parada. Talvezaté com mais força do que o desejável, porque eu gostaria de ver uma zaga comGonzáles e Aírton, mas o fato é que abriu espaço para quem trata a bola umpouco melhor. Com um pouco de coragem do distribuidor de camisas e de quem asreceber, haveremos de ter um Flamengo melhor já na quinta.
O acaso ajudou. Mas chega de distração e vamos jogar bola.Chegou a hora de dizer até onde esse time pode ir.
Duque de Caxias 1×2 Flamengo
4 de março de 2012 – Taça Rio
Estádio Cláudio Moacyr – Macaé
Árbitro: Péricles Bassols Cortez
Flamengo: Felipe (Paulo Victor), Galhardo, Marcos González,David Bráz e Junior Cesar; Muralha, Luiz Antonio, Camacho e Ronaldinho Gaúcho;Deivid (Negueba) e Vágner Love. Técnico: Joel Santana
Duque de Caxias: Fernando; Arilson, Paulão, Jorge Fellipe eRodrigues; Romário, Juninho, Raphael Augusto (Danilo Rios) e Jefinho; Watthimem(Rafinha) e Gilcimar (Laio). Técnico: Eduardo Allax
Gols: Vágner Love aos 15 do 1º tempo; Rodrigues (falta) aos17 e Ronaldinho Gaúcho (pênalti) aos 37 do 2º tempo.