Quando meninos viram homens

Nasci em uma família rubro-negra. Todos os 10 moradores de minha casa eram flamenguistas. Não tinha como eu não ser também, principalmente tendo um avô e um pai como os meus, cujo assunto preferido era futebol. Por isso, a rotina dominical era religiosamente seguida, fizesse chuva ou sol: à tardinha, todos os homens da minha casa vestiam o manto menos furados e iam ao Maracanã.

E eu me tornei um homem aos 7 anos de idade, no Brasileiro de 1981, mas precisamente no dia 5 de abril, no jogo Flamengo x Colorado. Ainda lembro o impacto que me causou a subida do túnel da arquibancada do Maracanã. A cada passo o barulho do Estádio ia aumentando e boquiaberto observei a imensidão do evento. Avistar a torcida e aquele gramado verde foi algo deslumbrante.

Lembro de minha inquietação ao notar que só ouvia o som do estádio e da minha insistência em perguntar: “Vô, cadê o narrador?” Passou um helicóptero: “Vô, cadê o narrador?” O jogo começou: “Vô, cadê o narrador?” (E pensar que hoje em dia mando o Galvão Bueno calar a boca!).
O jogo em si foi marcante também. Para quem não sabe, o Colorado rivalizava com o Atlético-PR e Coritiba no estado paranaense (em 1989, ele e o Pinheiros juntaram forças e formaram uma nova agremiação: o Paraná Clube). Vinte dias antes desse confronto no Maracanã, o Flamengo levou uma goleada de 4 x 0 no Couto Pereira. Além do caráter de revanche, a partida era decisiva para avançar de fase no campeonato brasileiro. Mais de sessenta mil pessoas foram ver esse encontro e, entre esses milhares, “euzinho da silva”.

O jogo foi dificílimo. Apesar do timaço do Flamengo jogar em casa, a equipe Colorada conseguia resistir às investidas rubro-negras e aplicava alguns sustos. Já no fim do primeiro tempo, silenciou a torcida ao fazer o seu gol, após um chute cruzado da direita, onde o atacante Aladim só teve o trabalho de escorar para o gol vazio.
Que sensação ruim… O primeiro gol que vi no Maracanã não foi do Flamengo. Meu avô aproveitou para tirar onda comigo. Chamava-me de pé frio e que não fez bem em ter me levado para um jogo tão importante. Pior que na mente de uma criança, isso soa como verdade. Veio o intervalo e meu avô já estava “de bem” comigo. Como era gostoso aquele picolé escorrendo pela mão!
Começa o segundo tempo, sorvete limpo no short e olhos vidrados no jogo. Nunca fui daquele tipo de criança em que o jogo corre solto e a desgraçada tá olhando pro céu, pro placar ou pra criança do lado. Ainda mais com o time perdendo e eu sendo o responsável pela derrota. O jogo transcorria tenso e a pressão empregada pelo Mengo estava implacável.

flacolorado

Perdíamos vários gols, e agonia ia aumentando… Mas quem tem Zico tem tudo! O Galinho estava encapetado e comandou a virada. Dois golaços em dois minutos, já no período final da partida.

Voltei em estado de euforia para casa. Caramba, ir ao maior estádio do mundo, ver o Flamengo vencer e ainda com gols do seu maior ídolo, não tem preço! No dia seguinte na escola, a marra tradicional de todo flamenguista estava incorporada em mim. Eu era o único da minha classe que já tinha ido ao Maraca. E os amiguinhos tiveram que aturar as minhas narrativas detalhadas do espetáculo que eu presenciara. Coitados…
Nesse mesmo ano, fui várias vezes ao Maracanã, inclusive no primeiro jogo da final da Libertadores, contra o Cobreloa (o jogo mais importante que vi no Maracanã, apesar de, na época, não ter noção do que a Libertadores significava). Nesse ano, o fanatismo já havia tomado conta de mim. A prova é que, semanas depois, na famosa final do “Ladrilheiro”, me recusei a ir a 1ª Comunhão de minha prima para poder ficar em casa, ouvindo a Decisão pelo rádio. Era a primeira vez que ficava em casa sozinho. Na semana seguinte, eu era um dos milhões de brasileiros acordados na madrugada para ver o Flamengo conquistar o Mundo, mas aí conto numa outra oportunidade.

petitHoje fiz questão de compartilhar com vocês o dia em que me tornei um homem de verdade. O dia que conheci a casa da Nação Rubro-negra e que nela o Mengão se impôs. Obrigado aos homens da minha casa (avô, pai e tios) que me tornaram flamenguista. Obrigado, Zico, por ter feito esse dia ainda mais perfeito. Obrigado, Flamengo. por ser tão maravilhoso! Obrigado a vocês que conseguiram chegar até o final do texto! Tomara que de alguma forma isso remeta a lembranças que, assim como a minha, nunca sairão de suas mentes.

 

Flamengo 2 x 1 Colorado
5 de abril de 1981 – Campeonato Brasileiro
Estádio do Maracanã – Rio de Janeiro
Público: 61.749
Árbitro: Márcio Campos Sales
Flamengo: Raul, Carlos Alberto (Fumanchu), Luís Pereira, Marinho, Júnior, Vítor, Adílio, Zico, Tita, Nunes, Ronaldo. Técnico: Modesto Bria.
Colorado: Joel Mendes, Sídnei, Marião, Caxias, Ivo, Newton (Sartóri), Peres, Marinho, Buião, Jorge Nobre, Aladim. Técnico: Geraldino Damasceno.
Gols: Aladim, aos 39 do 1º tempo. Zico aos 33 e 35 do 2º tempo.

 

Marcelo Espíndola
@CeloEspindola

Vinte Anos Esta Tarde.

A Nação já tinha um Deus, Antônio José da Raça Rondinelli Tobias. Já éramos todos súditos de Rei Arthur Primeiro e Único. Colecionávamos heróis como figurinhas emocionais, todas carimbadas pela nossa paixão. Um dia, um desses heróis pendurou seu capacete black power de tantas batalhas e tomou em mãos uma batuta para reger a Nação que cantou, cantou e cantou. A cada canto mais o Maestro crescia. E assim fomos pentacampeões.

Conte comigo, Mengão:

Campeão 80: O Brasil aos Pés de um João Danado
Bi 82: Cala-te, Olímpico
Tri 83: São Judas Tadeu Maior do que Todos os Santos
Tetra 87: Campeão da Verdade
Penta 92: Valeu, Maestro!

Toda a gratidão do mundo, desta e de outras vidas e de cada um dos 35 milhões a você, Leovegildo Lins da Gama Júnior.

Valeu, Maestro!

Mauricio Neves

Santo Fla-Flu de 1999

Para não cometer ofensa à história do Centenário clássico Fla-Flu, jamais ousaria escrever sobre ele. Nelson Rodrigues e Mário Filho se contorceriam dentro do caixão. Deixo com vocês apenas as imagens de um jogo inesquecível.

Em 20 de janeiro de 1999 foi organizado um Fla-Flu para comemorar a data do padroeiro da Cidade do Rio de Janeiro, São Sebastião. Seria o primeiro jogo da temporada e também a reabertura da geral do Maracanã, depois de alguns anos fechada. Durante umas duas semanas o evento foi amplamente divulgado nos veículos de comunicação e o amistoso ganhava ares de decisão de campeonato. Mais de noventa mil pessoas compareceram para ver o duelo do time de Romário contra o de Túlio Maravilha, principal contratação do time das Laranjeiras para disputa da série C daquele ano.

Apesar do calor de mais de 40 graus, as pessoas que compareceram ao caldeirão do Maraca não se arrependeram nem um pouco do calor escaldante. Foi um jogão, com direito a oito gols, pênalti defendido e consagração de Romário. Uma exibição de gala daquele que seria o time campeão Estadual daquele ano. Destaque também para a ótima participação de Caio e do centroavante Marcelo (aquele que faria quatro contra a gente pelo Madureira em 2007).

Nada mais intenso do que um Fla-Flu.

Nada mais lindo do que a torcida do Flamengo no Maracanã.

Flamengo 5 x 3 Fluminense
20 de janeiro de 1999 –Troféu São Sebastião
Estádio do Maracanã – Rio de Janeiro
Público: 93.415
Árbitro: Ubiraci Damásio
Flamengo: Clemer, Pimentel, Fabão, Ronaldo, Athirson (Marco Antônio), Jorginho, Cleison, Beto, Iranildo (Rodrigo Fabri), Caio (Marcelo Santos) e Romário. Técnico: Evaristo de Macedo.
Fluminense: Adilson, Paulo César (Flávio), Gelson, Emerson, Nonato, Roberto Brum (Leandro), Jorge Luís, Bruno Reis (Marco Brito),Róger (Magno Alves), Roni (Artur) e Túlio. Técnico: Carlos Alberto Parreira.
Gols: Romário, aos 25 e 30, Emerson aos 32, Caio aos 36 e 44, Roni aos 39 do 1º tempo. Magno Alves aos 44 e Marcelo Santos aos 46 do 2º tempo.

Mais uma vez flamengamos

A língua portuguesa é rica e vasta. Na última atualização do dicionário Aurélio, foram computados mais de 30 mil verbetes. E ano após ano são incorporados novos vocábulos ao nosso linguajar. Corre o risco de vermos na próxima edição desse conceituado dicionário o verbo flamengar. E viria com a seguinte definição: flamengar é a capacidade de entregar confrontos aparentemente decididos. Só na nossa história recente foram diversas as flamengadas. As derrotas para o América do México e Santo André; o empate com o Goiás em 2008, após estar vencendo por 3 a 0; empate com o Olímpia na Libertadores desse ano. Tiveram algumas flamengadas mais antigas como a derrota para o Bonsucesso em 1968, onde poderíamos empatar para sermos campeões da Taça GB; a derrota para o Serrano que nos arrancou o tetra estadual de 1980; empate com o Botafogo em 1989, que nos tirou a chance de liquidar o campeonato estadual daquele ano. Com certeza, vocês devem lembrar de outros micos históricos.

Apesar do time atual não me despertar mais nenhum sentimento nobre, muito menos confiança, resolvi comparecer ao duelo contra o Internacional. Só que depois que cheguei ao Engenhão, começou a bater depressão. O Estádio é bonito, mas estranho demais. Não tem acústica, o gramado fica longe da arquibancada e é desconfortável. Com ingressos caros, a classe média é maioria dos que comparecem aos jogos. E isso é prejudicial demais a um clube de massa como o nosso. Não me recordo a última vez que ouvi no Estádio o tradicional grito de Meeeeeeeeengo. Por que as Torcidas Organizadas só cantam músicas com gosto duvidoso e esquecem de gritar isso? E o cante comigo Mengão? Por essas e outras, visitar o Engenhão me entristece cada vez mais.

O jogo em si foi esquisito. Abrimos 2 x 0 em poucos minutos e parecia que íamos dar uma enfiada histórica na gauchada. Não pelo futebol apresentado pelo nosso time, mas pela fragilidade da defesa colorada. Engraçado que em nenhum momento, mesmo após abrir vantagem, a torcida empolgou. Ninguém mais confia no time do Joel e seus comandados. Isso ficou gritante quando o Inter diminuiu o placar ainda no primeiro tempo. Muitos palavrões já eram balbuciados entre os torcedores.

Veio a segunda etapa e logo no início, Love acalmou a torcida, fazendo 3 x 1. Até eu mesmo, que sou pessimista toda vida, já estava imaginando uma goleada. Como sou tolinho… Tomamos o empate e mais uma vez ficamos atônitos no estádio. Não se jogou mais e muito menos se ouviu incentivos. Não tínhamos mais força. A apatia tomou conta até de nossa torcida. Acabou o jogo e nenhum protesto. Uma vaia apenas. E o Engenhão foi-se esvaziando silenciosamente, triste e melancólico.

É… o Flamengo flamengou de novo.

Flamengo 3 x 3 Internacional
26 de maio de 1992 – Campeonato Brasileiro
Estádio: Engenhão – Rio de Janeiro
Público: 14.238
Árbitro: André Luiz de Freitas Castro
Flamengo: Paulo Victor, Léo Moura, Welinton, González e Magal; Aírton (Amaral), Luiz Antonio (Renato Abreu), Kleberson e Ibson; Ronaldinho Gaúcho (Deivid) e Vagner Love. Técnico: Joel Santana.
Internacional: Muriel, Nei, Rodrigo Moledo, Indio e Fabricio; Elton, Guiñazu, Josimar (Maurides) e Dátolo; Gilberto (Marcos Aurélio) e Dagoberto (Bollati). Técnico: Dorival Junior.
Gols: Airton, aos 8, Ronaldinho Gaúcho, aos 16 e Gilberto, aos 33 do 1º tempo. Vagner Love, aos 3, Fabricio, aos 21 e Dátolo 24 do 2º tempo.

Vamos reviver?

Saudades…
De ver o Flamengo jogando no Rio
De ver o estádio lotado
De um maestro comandando o meio campo
De ver o Zinho brilhando pelo rubro-negro
De sapecar o Internacional
De ver a torcida feliz

Será que hoje iremos reviver todas essas emoções?

Flamengo 2 x 0 Internacional
31 de maio de 1992 – Campeonato Brasileiro
Estádio do Maracanã – Rio de Janeiro
Público: 79.606
Árbitro: Márcio Resende de Freitas
Flamengo: Gilmar, Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Júnior Baiano, Piá, Uidemar, Marquinhos, Júnior (Júlio Cesar Imperador), Zinho, Nélio e Gaúcho. Técnico: Carlinhos
Internacional: Fernadez, Pinga, Célio Silva, Daniel, Célio Lino, Simão, Marquinhos, Zinho (Leco), Elson, Lima (Luiz Fernando), Gérson. Técnico: Antônio Lopes
Gol: Júnior, aos 37 do 1º tempo e Zinho, aos 9 do 2º tempo.

A arte da vingança

A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena. Quem nunca ouviu essa frase do lendário seriado Chaves? Uma frase carregada de bons valores e de sentimentos nobres. Mas que se foda o Chaves e a pureza da alma! Com o Mengão não tem essa não. Gostamos de nos vingar, com requintes de crueldade. Vamos a alguns exemplos da desumanidade rubro-negra:

Botafogo nos ganhou por 6 X 0 em 1972 e nos vingamos em 1981 e aplicamos os juros em 1985. Palmeiras nos eliminou em 1979 e no ano seguinte foi o nosso troco. Vasco tirou onda com o gol do título de 1988 de um tal Cocada e a nossa desforra dura até hoje: nunca mais ganharam uma final da gente.

E o jogo que recordaremos hoje é sobre outra vingança à nau portuguesa. Nesse mesmo ano de 1988, Flamengo e Vasco se enfrentaram seis vezes. Vencemos a primeira partida e perdemos as outras cinco, para delírio dos vascaínos que entoavam a todo canto que haviam feito a quina e blá, blá, blá… Todas essas derrotas foram em um intervalo de tempo de quatro meses.

Incomodava-me demais essa marca negativa, ainda mais para um time de Portugal. Mas nossa vingança tardaria, mas chegaria. Ela começou a acontecer no ano de 1990. Vencemos o Vasco por 1 x 0 pelo Campeonato Brasileiro daquele ano, com gol do novato Nélio. A segunda vitória foi no Brasileirão do ano seguinte, que foi antecipado para o primeiro semestre. Vitória acachapante por 3 x 0. Depois veio a Taça Estado do Rio de Janeiro, onde ganhamos por 2 x 0, com dois gols de Marcelinho. A quarta vitória foi na Taça Guanabara, de virada por 2 x 1, com o centroavante Gaúcho tirando onda de Seu Boneco da escolinha do Professor Raimundo.

Finalmente chegava o jogo que concretizaria a vingança. A partida valia pela Taça Rio de 1991 e o Flamengo vinha fazendo uma campanha impecável no segundo turno, disputando ponto a ponto com o Botafogo a conquista da competição. Esse jogo também foi marcado pela inauguração do primeiro bandeirão do Flamengo, confeccionado pela Torcida Jovem. Ainda está viva em minha memória, a imagem daquela enorme bandeira sendo desfraldada para delírio do lado rubro-negro e silêncio da atônita torcida vascaína.

Além da motivação pela liderança e da oportunidade de vingar-se três anos depois, enfrentar o baiano Bebeto sempre era um ingrediente a mais para o clássico. O jogo teve amplo domínio do Flamengo, que possuía um timaço. Gaúcho e Júnior estavam no auge e a torcida estava em sintonia com a evolução do time. Verdadeiro espetáculo na arquibancada, com coreografias sincronizadas e alegria incontrolável. À medida que os gols saíam e a forra se concretizava, o êxtase ia tomando conta da atmosfera rubro-negra. A sensação de alívio ao tirar aquele incômodo fardo era sublime. A quina agora era nossa e ainda mais bela, pois não foi feita em jogos subsequentes, onde uma má fase explica, e sim em quatro torneios diferentes. A vingança foi digerida friamente, assim como o ditado sugere.

Hoje pela Taça Rio 2012, mais um clássico dos milhões agita as torcidas. Se o Bacalhau for esperto e ligado na história sabe que logo mais pode ser de novo vítima da envenenada alma rubronegra. Porque Deivid está sinistro, com sede de revide e também não está nem aí pra lição de moral de seriado mexicano.

Flamengo 2 x 0 Vasco da Gama
24 de novembro de 1991 – Campeonato Carioca
Estádio do Maracanã – Rio de Janeiro
Público: 42.734 pagantes
Árbitro: Claudio Vinícius Cerdeira
Flamengo: Gilmar, Charles Guerreiro, Gotardo, Júnior Baiano, Piá, Uidemar, Júnior, Nélio (Marquinhos), Zinho, Paulo Nunes (Fabinho) e Gaúcho. Técnico: Carlinhos
Vasco: Carlos Germano, Dedé, Torres, Missinho, Cássio, França, Luisinho, Bebeto, Sorato (Mauricinho), Bismark, William. Técnico: Antonio Lopes
Gol: Zinho, aos 36 do 1º tempo e Fabinho, aos 10 do 2º tempo.

Recordar é viver: Flamengo e Americano já decidiram um campeonato

Flamengo e Americano se preparam para mais um encontro pelo Campeonato Carioca. O time campista já viveu dias melhores, aliás, a fase atual é a pior de sua história. Pela primeira vez deve ser rebaixado para a segunda divisão estadual. Enfrentar o Americano nunca foi parada fácil, principalmente quando o jogo era realizado em Campos. Quando você fazia previsões dos possíveis resultados no campeonato, o jogo contra eles sempre vinha com uma interrogação ao lado, pois tudo podia acontecer no escuro campo do Godofredo Cruz. O duelo de hoje pelo Campeonato de 2012 em nada lembra alguns confrontos passados e a vitória flamenguista, apesar do futebol apresentado, parece favas contadas.

Relembraremos hoje o dia em que decidimos um campeonato com a equipe campista. O torneio era a Taça Estado do Rio de Janeiro de 1991. Em tempos de calendário inchado, a Federação criou esse torneio, que era divido em duas frentes. Os times da Capital disputavam o título em um grupo e no outro os times do interior. No grupo da Capital, Flamengo foi o campeão após enfrentar Campo Grande, Olaria, Fluminense, Botafogo e Vasco. Na semifinal despachamos o América-TR enquanto o Americano eliminou o bom time do Botafogo.

A única semelhança com esse confronto do ano de 2012 é o desinteresse do público. Apesar de uma decisão de campeonato, pouca gente foi ao Maracanã naquele dia. Com os Jogos Pan Americanos de Havana acontecendo paralelamente, as atenções estavam divididas. Além disso, os dirigentes já não entendiam que torneios como aquele eram apenas caça-níqueis.

O rubro-negro havia ganho o primeiro jogo da decisão em Campos por 1 x 0 e vinha para a segunda partida com a vantagem do empate. No banco, Luxemburgo era o comandante. No campo, o grupo era o mesmo que venceria o Estadual daquele ano e o Brasileiro do ano seguinte. Os experientes: Gilmar, Gotardo, Charles Guerreiro, Júnior, Zinho e Gaúcho e a garotada vindo da base: Fabinho, Junior Baiano, Rogério, Piá, Marquinhos, Marcelinho, Djalminha e Paulo Nunes. O jogo transcorreu de maneira tranqüila e vitória por 3 x 0 só veio corresponder o favoritismo. O destaque absoluto daquela decisão foi o Maestro Júnior. O craque estava completando 759 jogos pelo Flamengo e mostrava que ainda estava no auge da técnica e esbanjando vigor físico. Era o ídolo maior de uma torcida que ainda se acostumava a não ter mais o Galinho em campo.



Foi um título de pouca repercussão, mas de extrema significância para consolidação de uma geração. Ganhar títulos é sempre importante. Infelizmente nesse primeiro semestre só nos restou o Estadual. Então temos que nos agarrar ao carioquinha mesmo. Nos resta a esperança de estarmos presenciando a formação de uma base campeã, assim como em 1991.

Flamengo 3 x0 Americano
10 de agosto de 1991 – Taça Estado do Rio de Janeiro
Estádio do Maracanã
Público: 8.114 pagantes
Árbitro: Claudio Cerdeira

Flamengo: Gilmar, Fabinho, Júnior Baiano (Rogério), Gotardo, Piá, Charles Guerreiro, Júnior, Marquinhos (Marcelinho), Zinho, Paulo Nunes e Gaúcho. Técnico: Vanderlei Luxemburgo

Americano: Zé Luís, Serginho, Paraju, Paulo Renato, Edivaldo Gomes, Carlos, Haroldo, Branco, Amarildo, Gilmar, Edivaldo II. Técnico: Flávio Almeida

Gols: Gaúcho, Zinho e Júnior.

Marcelo Espíndola
@FlaMuseu

Bacalhau à moda Rubro Negra

 

Sou ateu, graças a Deus, mas confesso que gosto das fábulas da páscoa. A do cara que é crucificado e ressuscita, a do amigo-da-onça que trai o cara com um beijo maldito por trinta dinheiros, o daquele povo perdido em busca da terra prometida, a do velhote da táboa com idéias polêmicas que atravessa o mar vermelho a pé… Deve ser culpa das sessões da tarde e da mistura psicoestimulante de chocolate com aqueles efeitos especiais tão maneiros. E vocês, vão me dizer que não vibram cada vez que o velho Moisés abre o mar em dois?!?

Pois minhas aulas de religião serviram para alguma coisa foi para saber que todos essas fábulas falam da mesma coisa. Conforme a própria origem da palavra páscoa são histórias de transformação, de superação, de sacrifício e de passagem. Histórias de gente que rala e consegue o impossível. Pergunta pro tal coelho que conseguiu botar um ovo de chocolate.

Não é difícil usar esses mitos milenares e universais pra fazer analogias. Se Deus existisse seria a Patrícia Amorim: não tem a menor idéia do que está fazendo, manda menos que o Diabo e ainda é capaz de mandar o próprio filho para cruz se o coitado for mais famoso e amado do que ela. O Judas sem dúvida seria o Ronaldinho, aquele que se vendeu por trinta dinheiros e que esteve presente na ressurreição do crucificado Deivid. E o velhote Moisés? Acho que é o Joel mas nossa ida à terra prometida (as oitavas da Libertadores) parece mesmo precisar de um milagre.

O primeiro milagre Joel já fez. Ele conseguiu dividir o Mar Vermelho e Preto em dois. Os que no sábado de aleluia torciam pelo Flamengo e os que torciam contra, com a esperança de com a derrota as mudanças se farão mais urgentes. Ora, amigos rubro negros, é nessas horas apocalípticas que devemos estar unidos e ter coragem. Isso mesmo, coragem. Na língua oficial da Libertadores da América, un par de huevos. E na língua do Rondineli catalão, Carles Puyol, um par de pebrots (pimentões). Ovos ou pimentões são portanto ingredientes impescindíveis das , aquelas que acontecem exatamente quando tudo parece estar perdido.

Por isso é um pecado desperdiçá-los. Jamais o faça, irmão rubro negro. Jogar um ovo, símbolo da vida, para agredir a nossos soldados só pode ferir a alma da nossa enorme Família Urubu. Ainda mais quando tem tanto rubro negro esfomeado por aí. (Vagner Love, deixa de ser fominha!) Esse ovo podia estar alimentando o grito de mais um rubro negro, e empurrando o time a mais uma vitória impossível. E são essas vitórias as que reúnem as famílias para comer bacalhau num domingo qualquer como o da Páscoa.

Por isso eu criei uma receita especial para a família rubro negra, feita com bacalhau destroçado. Em homenagem ao nosso rival Vasco, sempre de molho, pronto para o consumo. É uma receita típica catalã adaptada ao gosto rubro negro. Além de serem a terra do F. C. Barcelona, a Catalunya tem uma culinária especializada em fazer grandes maravilhas com o uso minimalista de seus ingredientes mediterrâneos. Nada muito diferente, nem muito elaborado, mas tudo delicioso. Que sirva de inspiração para o gourmet Joel Santana, especialista em macarrão com salsicha. Que mantenha fechada a boca do vomitivo Zé (Marín) das Medalhas, nem que seja por alguns minutos, afinal saber cozinhar deveria ser motivo de orgulho para todos os homens e mulheres. E que sirva para a Nação se purificar, se unir e repor as energias para o desafio de quinta-feira.

Se você não acredita no time, está de saco cheio com a diretoria, com a nossa presidenta, vá ao estádio. Sim, vá ao estádio por mim, que estou a mais de 9 mil quilômetros do meu Mengão. Sim, vá ao estádio pela Nação Rubro Negra. Afinal seus irmãos rubro negros sofrem os mesmos flagelos que você nesse momento e estão loucos para cantar ao teu lado. E que Zico todo poderoso nos traga mais um delicioso milagre.
Bon profit, Nació Vermella i Negra!

Rir pra não chorar…

Nessa má fase, o ódio está me consumindo. O que já praguejei de gente essa semana não está no gibi. Se minha praga fosse eficiente, Patrícia Amorim, Joel, Ronaldinho e companhia estariam em outro plano espiritual. Sorte deles é que nem para isso presto.
Queria postar algo legal para esse Flamengo e Vasco, mas não sei fazer oba-oba, muito menos poesia. Para amenizar e tentar relaxar um pouco, lembrarei de um jogo “esquecível” do ano de 2003. Era aniversário de 53 anos do Maracanã e a torcida do Vasco estava em maior número. Os dois times estavamem péssima fase, mas o Flamengo havia acabado de perder a Copa do Brasil para o Cruzeiro. Nada de muito legal, porém o jogo foi recheado de cenas engraçadas. Vale à pena dar uma conferida no vídeo, pois além de dar boas risadas, talvez venha deixá-los menos revoltados.

Hoje o cenário é mais ou menos o mesmo. Torcida do Vasco mais animada e a do Flamengo desmotivada. Mas a gente já sabe quem sempre sorri por último.

Flamengo 2 x 1 Vasco
15 de junho de 2003 – Campeonato Brasileiro
Estádio do Maracanã
Público: 13.920
Árbitro: Jorge Rabello
Flamengo: Diego, Luciano Baiano, Fernando, André Bahia, Cássio, Fabinho, Jônatas, Fabiano Eller, Igor (Ibson), Zé Carlos, Jean(Vinícius Pacheco). Técnico: Nelsinho Batista.
Vasco: Márcio, Russo (Claudemir), Wescley, Wellington Paulo,Wellington Monteiro, Da Silva, Rodrigo Souto (Morais), Marcelinho Carioca, Souza (Ely Thadeu), Cadu, Marques. Técnico:Antônio Lopes
Gols: Cadu aos 9, Zé Carlos aos 12 do 1º tempo e  Cassio aos 43 do 2º tempo.

Saudade do meu time jogando como Flamengo

O saudosismo me consome diariamente. Quando chegam jogos importantes tento me agarrar a coincidências de duelos passados para tentar desvendar futuros vencedores, me baseando na máxima de que eventos tendem a se repetir de tempos em tempos. Tá, forcei a barra… Essa expressão é mais usada no mundo fashion, onde modismos sempre voltam de tempos em tempos. Mas estou sempre apegando a qualquer indício de que as coisas podem dar certo pra gente.

Sinceramente, a partida contra o Emelec não me remete a nenhum jogo o antigo. O máximo, o que me passou na cabeça foi o pavor de não passar da primeira fase, assim como em 2002, principalmente por pegarmos o Olímpia na mesma chave que aquele maldito ano e por temos ambiente tão conturbado quanto na época. Nesse momento não quero ser pessimista nem muito otimista. Não exigirei atuações semelhantes ao do time de 1981. Contento-me com confrontos que mesmo eliminado, jogadores se entregaram e honraram o manto. Lembrar de jogos de casa cheia em que a torcida fez a diferença. Onde o Flamengo venceu na marra, assim como o jogo que irei recordar.

Eu, com meus 17 anos, iria presenciar um clássico mundial no Maracanã. O ano era 1991 e a partida valia pelas quartas de final da Libertadores. Com a base do time campeão brasileiro de 1992, o Flamengo enfrentaria o Boca Juniors, comandado pelo fantástico Batistuta. E foi um duelo inesquecível. Após o primeiro tempo equilibrado e sem gols, a partida incendiou na segunda etapa e com apoio da torcida, abrimos dois a zero. Batistuta diminuiu o placar, o que seria determinante no jogo seguinte, onde fomos eliminados. Aquela partida foi dramática, cercada por uma aura eletrizante de rivalidade, digno de final de competição. Saí do estádio rouco, satisfeito e com a certeza de que aquele era o meu Flamengo.

Ver jogadores como Gaúcho e Charles, desprovidos de muita técnica, mas que encarnavam o espírito guerreiro, fez de mim um cara exigente. Talvez eu não tenha mais a juventude que nos faz ver a vida de maneira mais entusiástica, mas o mínimo de dedicação qualquer torcedor tem direito de reivindicar. Infelizmente, constato que o time atual não tem sangue. Deve correr gel de cabelo na corrente sanguínea dos jogadores, pois seus penteados saem intactos do gramado.

Seria pedir muito que alguém se doasse a ponto de fazer com que os jovens que irão ao Engenhão nessa quinta-feira tenham o mesmo orgulho que eu tive?

Não seria demais poder lembrar de uma partida onde, mesmo não tendo sido campeão, tivemos a certeza de ver o Flamengo em campo? Será que estou muito rabugento?

Flamengo 2×1 Boca Juniors
1º de maio de 1991 – Taça Libertadores da América
Estádio do Maracanã – Rio de Janeiro
Público: 49.206 pagantes
Árbitro: Enrique Marin
Flamengo: Gilmar, Charles Guerreiro, Adilson, Wilson Gotardo e Dida; Zé Ricardo, Júnior, Zinho e Marcelinho (Marquinhos); Alcindo e Gaúcho. Técnico: Vanderlei Luxemburgo
Boca: Navarro Montoya, Abranovich, Simon, Marchesini e Moya; Sonora, Giunti e Graciani (Tapia); Diego Latorre e Batistuta
Gols: Marquinhos aos 7, Gaúcho aos 20 e Batistuta (pênalti) aos 23 do 2º tempo.

Marcelo Espíndola
@FlaMuseu